'Perdoo, mas quero justiça', diz viúva de vítima operada por médico suspeito de causar mortes e lesões em dezenas de pacientes
Fotos de Waldomiro dos Santos Oliveira, paciente de João Couto Neto morto em 2010; cirurgião responde por homicídio doloso no caso. Globo/Divulgação Waldom...
Fotos de Waldomiro dos Santos Oliveira, paciente de João Couto Neto morto em 2010; cirurgião responde por homicídio doloso no caso. Globo/Divulgação Waldomiro dos Santos Oliveira foi operado pelo médico João Batista do Couto Neto para retirada da vesícula. O paciente teve complicações e não resistiu. Em audiência judicial, a viúva, a massoterapeuta Beloni Machado Lialho, pediu autorização para falar diretamente com o cirurgião: "Foi isso que eu falei para ele: eu quero que tu saiba que eu te perdoo, mas eu quero que a justiça seja feita". O número de investigações contra o médico chama a atenção: são 150 inquéritos instaurados pela Polícia Civil. Do total, 11 foram encaminhados para a Justiça de Novo Hamburgo. Em oito, João Couto foi indiciado por homicídio triplamente qualificado com dolo eventual. Nos demais, não foi comprovado envolvimento do cirurgião nas mortes. "A insistência dele em realizar procedimentos de urgência mesmo sem a real necessidade clínica. Outra questão foi a dispensa de exames pré-operatórios ou investigação prévia do estado de saúde. Promessa de recuperação rápida, perfuração de órgãos", enumera a polícia. Médico João Batista do Couto Neto é preso no interior de São Paulo. Reprodução João Couto é reu em dois processos por suspeita de seis homicídios. A fase de instrução — aquela em que são produzidas provas, ouvidas testemunhas, analisadas perícias — foi encerrada, e o caso está com o juiz responsável. Um dos caminhos pode ser o Tribunal do Júri, com sete cidadãos votando pela condenação ou absolvição. A defesa do cirurgião alega que todo procedimento médico pode ter consequências negativas e que o insucesso não significa erro ou dolo. Acrescenta ainda que João Couto "se formou para salvar vidas e jamais teria intenção, mesmo indireta, de ceifar vidas". Em declaração no ano passado, João Couto disse ter realizado mais de 25 mil procedimentos em 19 anos de carreira. Ele vive em Novo Hamburgo, responde aos processos em liberdade e está impedido de exercer a medicina. O caso João Couto virou série documental na Globoplay: "Quebra de Juramento — um médico no banco dos réus" traz detalhes inéditos das investigações, depoimentos e vídeos. Outros relatos A operadora de caixa Luana Aparecida afirma ser filha de um paciente operado por João Couto. Ela relata que o pai, Luiz Carlos Rodrigues da Silva, passou por uma cirurgia de hérnia inguinal e sentiu dores intensas até morrer. "Ele gritava com muita dor. O meu pai gritou em cima de uma cama de agosto a dezembro até falecer. Sem nenhum tipo de suporte, sem nenhuma ajuda do doutor Couto", relembra. Em outro caso, Elisângela relatou que procurou João Couto para retirada de um cisto no ovário e saiu do procedimento sem as trompas e o ovário. "Não necessitava ele tirar minhas trompas e ovário e ele retirou, me condenando a não ser mãe. Eu choro bastante por causa disso, porque era o meu maior sonho ser mãe", conta. João Couto Neto fala pela primeira vez à Justiça e à imprensa depois do indiciamento Médico João Couto Neto, investigado pela polícia no RS Reprodução VÍDEOS: Tudo sobre o RS