Feminicídios, crimes virtuais e superlotação de presídios: os desafios da segurança pública do RS
Feminicídios e crimes virtuais: os desafios da segurança pública do RS Os desafios da segurança pública no Rio Grande do Sul mudaram nos últimos anos. Enq...
Feminicídios e crimes virtuais: os desafios da segurança pública do RS Os desafios da segurança pública no Rio Grande do Sul mudaram nos últimos anos. Enquanto crimes como homicídio, roubos e latrocínios apresentam forte redução, outros problemas exigem novas respostas do poder público, como a violência contra a mulher, o avanço dos golpes virtuais e o crescimento da população carcerária. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que as soluções passam por prevenção, especialização das forças de segurança, integração entre órgãos públicos e melhor uso das estruturas já existentes. Superlotação de presídios é um dos problemas de segurança do Rio Grande do Sul Reprodução/RBS TV Veja os principais desafios e as medidas sugeridas: Violência contra a mulher O problema: os feminicídios voltaram a crescer depois de atingirem o menor número da série histórica em 2024. O Estado também registra aumento nas tentativas de feminicídio. A rede de proteção ainda é desigual entre os municípios. O que fazer: ampliar as delegacias da mulher, que tem regiões como o Litoral Norte sem estruturas, reorganizar a Patrulha Maria da Penha, o atendimento especializado e a rede de acolhimento para mulheres ameaçadas. A pesquisadora Marlene Spaniol defende a expansão da Patrulha Maria da Penha para mais municípios. Atualmente, são 63 equipes em 114 cidades. Segundo ela, a formação específica dos policiais, que antes dificultava a expansão, passou a fazer parte dos cursos de formação da Brigada Militar. A promotora Ivana Battaglin também defende alternativas para mulheres que precisam deixar suas casas e não encontram abrigo no próprio município. Uma das possibilidades é a compra de vagas em abrigos de outras cidades. “Não é uma obrigação do Estado a construção de abrigos, mas é uma obrigação do Estado resolver a questão quando não tem abrigo.” Para as especialistas, a prevenção também precisa envolver educação, saúde, assistência social e políticas para mulheres. Crimes virtuais O problema: os golpes praticados pela internet cresceram, enquanto a investigação ainda é concentrada, em grande parte, nas delegacias responsáveis pelos crimes convencionais. Dados obtidos pela RBS TV via Lei de Acesso à Informação (LAI) apontam que entre 2020 e 2025, a Polícia Civil remeteu mais de 77 mil inquéritos de estelionato à Justiça. Em 70,5% dos casos, não houve indiciamento de suspeitos. O que fazer: ampliar a especialização da Polícia Civil e integrar forças de segurança e empresas privadas. O professor Rodrigo Azevedo defende a criação de grupos especializados em crimes digitais também fora de Porto Alegre. O delegado, ex-chefe de polícia e doutor em segurança virtual Emerson Wendt propõe aproveitar estruturas existentes, como as 27 Delegacias de Repressão ao Crime Organizado (Draco) do Estado, e criar frentes específicas para crimes digitais. Ele também defende maior troca de informações entre órgãos públicos, bancos, empresas de tecnologia e plataformas digitais. “É um desafio grande ter uma conexão maior entre o público privado, especialmente na troca de informações, na troca de conhecimentos.” Sistema prisional O problema: a população carcerária cresce mais rápido do que a criação de vagas. O Estado ultrapassou a marca de 50 mil presos em 2025 e chegou a aproximadamente 57 mil em 2026. Desde 2018, foram criadas 5.246 vagas, enquanto a população carcerária aumentou em cerca de 17 mil pessoas. O que fazer: controlar melhor a entrada e a saída do sistema, administrar as vagas existentes e investir na reintegração dos presos à sociedade. A defensora pública Mariana Py Muniz defende a criação de uma Central de Regulação de Vagas para acompanhar a ocupação das unidades e evitar que o sistema ultrapasse a capacidade: “Precisaríamos de um controle mais efetivo dessa porta de entrada, mecanismos de saída e a implementação do Plano Pena Justa, como existem em outros estados.” A doutora em Ciências Criminais Ana Carolina Proença defende o fortalecimento dos escritórios sociais, que auxiliam egressos na busca por emprego, qualificação e acesso à assistência social. O professor Rodrigo Azevedo chama atenção para os primeiros meses depois da saída da prisão, período que considera especialmente importante para prevenir a reincidência. O jornalista e documentarista Renato Dornelles destaca que os investimentos no sistema precisam ser permanentes e não podem se limitar à construção de novas vagas: “Não adianta construir novos presídios se não houver um controle da população carcerária.” Ele também defende políticas de prevenção e ressocialização. Rio Grande do Sul monitora agressores de mulheres com tornozeleiras eletrônicas Reprodução/RBS TV Soluções de longo prazo Para os especialistas, os três desafios exigem políticas que ultrapassem a atuação policial. Na violência contra a mulher, a prioridade é ampliar a proteção e a prevenção. Nos crimes virtuais, especializar as investigações e aumentar a integração com empresas. No sistema prisional, controlar o crescimento da população carcerária e reduzir a reincidência. As medidas dependem de ações conjuntas entre segurança pública, Justiça, saúde, educação, assistência social e iniciativa privada. VÍDEOS: Tudo sobre o RS